Cena 16
(Solidão ou paz?)
O silêncio da noite só não abafa o grito da dúvida sobre a melhor forma de otimizar o tempo.
Impaciente pela rotina, visto o escafandro da vontade e me jogo no mar de referências e atividades que precisam de minha atenção.
Mas agora é noite e o contraponto dos horários reserva a reclusão física e de pensamentos em um cômodo frio, impessoal e disforme.
Seria o momento de reflexão, de imersão na própria existência e organização dos anseios pessoais, verificando as necessidades e ações para atendê-las.
Não hoje.
Hoje é dia de sentir saudades. Mesmo com poucas horas de ausência.
E assim o tempo para, olha pra mim e finalmente diz:
- Relaxe!
Ao saber que o sono protege minha menina, durmo em paz.
August 20, 2008 No Comments
Cena 15
(Poucos carros na rua às 5:15h. Insônia inesperada)
O silêncio me acorda e me acompanha nesta manhã de quarta-feira. Já estamos na metade da semana e lembro claramente que domingo foi ontem. Sinceramente eu não entendo o porque de tanta pressa do tempo.
A quantidade de atividades é tão grande que as horas aproveitam para passar despercebidas pela ampulheta da vida. Quanto mais atribulações mais largo o canal de passagem da areia.
O céu nublado promete chuva e ventos fortes durante o dia. Ótimo.
Por que estou acordado uma hora dessas?
Espero mesmo que não haja nenhuma resposta.
August 20, 2008 No Comments
Cena 14
(Trilha: barulho do ventilador soprando as idéias para fora da janela)
Praticar o desapego no seu aspecto mais amplo é um exercício zen de viver de uma forma contrária ao que nos foi imposto pela sociedade capitalista e também machista.
Em detrimento do “viver melhor” seguimos uma série de regras e paradigmas de novela inquestionáveis e limitantes que cegam e constróem sentimentos nocivos, porém latentes, da própria natureza humana.
O desapego é um desafio. E esse desafio possui níveis e escalas que são completamente variáveis em cada situação e para cada pessoa.
Ao mesmo tempo em que um objeto ou ação pode ser mais relevante do que a existência de uma pessoa conhecida, o contrário pode ser também verdadeiro para um outro ser ou ponto de vista.
E qual é o método para praticar o desapego?
Talvez as pessoas frias e calculistam tenham mais facilidade em encarar essa tarefa de forma mais simples. Aos mais emotivos, sofrimento.
A vida não é cartesiana. Mas a mentalidade sofrida ou a objetividade das pessoas pragmáticas constrói uma proteção confortante como um colete à prova de balas. O tiro machuca mas não mata.
Essa pseudo-imortalidade da postura gélida, inconscientemente anula a emotividade e torna a vida menos vida.
O desapego é um tipo de morte.
July 9, 2008 No Comments
Cena 13
(Braços sobre a mesa apoioando a cabeça com os punhos cerrados. Pensativo e inoperante)
Eu acredito que as únicas coisas que possuem uma estreita ligação com a minha personalidade aqui nessa casa são os meus livros. Todos eles.
Essa bibliografia acaba, de certa forma, moldando minhas características pessoais e o contexto de minha existência. Claro, o homem é produto do meio. Ou melhor: você é aquilo que você consome.
Vejo outros objetos e simulando uma situação de real necessidade, verifico que todos eles são supérfluos e de maneira alguma entrariam na minha lista hierárquica de necessidades.
Os livros representariam uma pequena porção da construção do ser. Modus operandi.
Quero sair desse apartamento. E as únicas coisas que levarei daqui serão minhas roupas (nem todas elas) e meus livros.
Dessa forma saio daqui levando minha proteção e a formação de meu caráter por completo.
July 9, 2008 No Comments
Cena 12
(Sentado, cansado e procurando um motivo para dormir)
Não há nada mais que eu possa fazer e ser ser produtivo agora de noite. O cansaço já não é só mais físico…mas também mental. No limite do desgaste o cérebro pede uma pausa. Ele já enxerga em um horizonte próximo uma trégua de alguns dias mas deseja com todas as forças e impacientemente que esse dia chegue o mais rápido possível.
Há uma tensão. Um ruído contínuo como um transformador em pleno funcionamento. Todos os movimentos e percepções são aceleradas e a sensação de que não há tempo para o descanso.
Pura percepção errônea e perigosa.
Instead of staying awake, i should waste (maybe that’s not the right word) time thinking what the hell i can do in this moment. Allways alert. Allways in the imminent of action but still.
Maybe getting a rest would be the proper thing to do now. Just forget my mental to-do list and start to really do things for my health, my consciousness balance and body recharge.
I’m just sick and tired of this procrastination that rules some aspects of my daily routine. I think it’s time to get rid of this madness forever. Just focus on things that are really matters.
I know that’s not that hard. And i’m one of the kind that can surely do. It’s a matter of focus.
You’re probably asking why I started to write in english. The answer is simple: i don’t know either.
But one thing is true: i’m not jailed in any kind of communication pattern right now. Just wanted to express…Doesn’t matter if it’s done in english, português ou auf Deutsch.
(Light starts to fade and a piano plays Chopin. Then, black screen an the lettering: …to be continued.)
May 31, 2008 No Comments
Cena 11
(23:41h - Ainda dá tempo de dizer para ela o que ela representa para mim.)
Eu não existo sem você.
Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim
Que nada nesse mundo levará você de mim
Eu sei e você sabe que a distância não existe
Que todo grande amor
Só é bem grande se for triste
Por isso, meu amor
Não tenha medo de sofrer
Que todos os caminhos me encaminham pra você
Assim como o oceano
Só é belo com luar
Assim como a canção
Só tem razão se se cantar
Assim como uma nuvem
Só acontece se chover
Assim como o poeta
Só é grande se sofrer
Assim como viver
Sem ter amor não é viver
Não há você sem mim
E eu não existo sem você
Composição: Antonio Carlos Jobim / Vinicius de Moraes
May 26, 2008 No Comments
Cena 10
(Domingo, 22:31h. Os poucos móveis me observam cruzar a sala para o escritório. Silêncio total).
Aqui estou eu no escritório. Após tirar a roupa, sento em frente ao computador e acesso minha vida digital. Várias coisas para olhar, para saber, para procurar. Normal.
A noite segue normal, sem problemas nenhum, quando começo a escutar pequenos ruídos, barulhos estranhos vindo da sala ou da cozinha. Não consegui identificar.
Apaguei a luminária…tudo escuro. Levanto vagarosamente e vou pra sala averiguar esses barulhos.
(…)
Nada. Nenhum sinal de porta aberta, de objeto caído. Simplesmente nada.
De qualquer forma, dei uma olhada geral na casa para me certificar. Provavelmente era o vento na porta que fazia os barulhos.
Volto pro escritório. Desconfiado…mas volto.
Começo a olhar uns sites e…olha o barulho de novo. Olhei para a porta do escritório e deixei pra lá. Mas o barulho insistia em pequenos intervalos e resolvi levantar novamente. Nada mais uma vez. Muito estranho.
Há quem acredite em fantasmas, almas penadas, coisas do além. Eu, particularmente, tenho mais medo dos vivos do que dos mortos.
(…)
Volto pro escritório convencido de que estou ouvindo coisas.
(…)
Barulhos no quarto dessa vez. No assoalho.
Vou no quarto, que está com a porta aberta. Nada, como era de se esperar.
Acendi a luz e só havia o vento sacudindo a cortina.
Provavelmente já intrigado com esses barulhos, qualquer ruído que acontecesse meu cérebro já associaria aos barulhos estranhos da sala.
Pra quem mora sozinho, esse tipo de coisa gera 2 situações:
1. Medo do suposto “sobrenatural”
2. Medo de pessoas com intuitos nada agradáveis em seu patrimonio.
Como disse anteriormente, tenho mais medo de gente do que de fantasma. Por isso fiquei alerta com os barulhos da porta da sala. Apesar de ter grade no meu apartamento, cuidado e atenção nunca são demais.
Vou comprar uma escopeta e deixar do lado da cama.
Engraçado…foi só falar de escopeta que os barulhos pararam…acho que os fantasmas ficaram com medo de morrer.
May 25, 2008 No Comments
Cena 09
(21:43h - Temperatura legal. No celular conectado no Home Theater, o som da noite: Sade. Clima perfeito, som perfeito, astral lá em cima. Bilhões de vezes melhor do que estar na rua nesse momento).
Kiss of Life
There must have been an angel by my side
Something heavenly led me to you
Look at the sky
It’s the color of love
There must have been an angel by my side
Something heavenly came down from above
He led me to you
He led me to you
He built a bridge to your heart
All the way
How many tons of love inside
I can’t say
When I was led to you
I knew you were the one for me
I swear the whole world could feel my heartbeat
When I lay eyes on you
Ay ay ay
You wrapped me up in
The color of love
You gave me the kiss of life
Kiss of Life
You gave me the kiss that’s like
The kiss of life
Wasn’t it clear from the start
Look the sky is full of love
Yeah the sky is full of love
He built a bridge to your heart
All the way
How many tons of love inside
I can’t say
You gave me the kiss of life
Kiss of Life
You gave me the kiss that’s like
The kiss of life
You gave me the kiss of life
Kiss of Life
You gave me the kiss that’s like
The kiss of life
You gave me the kiss of life
Kiss of Life
You gave me the kiss that’s like
The kiss of life
You wrapped me up in the color of love
Must have been an angel come down from above
Giving me love yeah
Giving me love yeah
You gave me the kiss of life
Kiss of Life
May 23, 2008 No Comments
Cena 08
(O carro sendo guiado pelo inconsciente e pela visão periférica, enquanto a mente analisa a cena em terceira pessoa).
O trânsito está até agitado para um dia de feriado. Algumas ruas estavam livres mas no geral, ao longo dos 11km de trajeto, bastante carro na rua.
Esse povo não tem o que fazer não? Sei que é feriado e que o pessoal quer sair de casa…mas em plena quinta? Muita gente trabalha amanhã…ou será que vão enforcar? Será?
Bom, independente dos enforcamentos, eu vou trabalhar…bastante coisa pra fazer. Sei que o ritmo vai ser mais lento…mas eu não posso deixar esse ritmo coletivo atrapalhar o dia de trabalho. Dia normal, como outro qualquer.
(Buzina)
Mas que merda! Se quer andar devagar, ande na pista da direita. E ainda fica falando no celular. Porra!
Deve ser pirraça. Só pode ser pirraça. Filho da puta.
(Sinal de luz)
Na moral, não estou com pressa…mas andar a 50km/h na ACM é pra enlouquecer…e não tem ninguém na frente. Por que não passa pra pista da direita? Essa galera dirige muito mal…muito mal mesmo.
(Ultrapassagem com olhar de negação)
Enfim…deixa lá.
(trilha: Machine Men. Aumenta o volume para 32)
Há de se ter cuidado ao ouvir esse tipo de som e dirigir. Se deixar levar pelo som, vou andar correndo demais. Parece um game…mas se bater aqui não tem extra-life. Desacelera.
O clima da cidade está bom…temperatura agradável e por isso o passeio fica melhor. As luzes dos carros fazem um balé nas pistas…é a cidade bombeando o venoso (ou seria venenoso?) para viver.
(Nota sobre a trilha: Putz…muito bom isso! Muito bom!)
Aciono o controle. Portão abre.
@home, finally.
Os vizinhos sempre ficam olhando você chegar. Pego minha Wired, abro o portão e volto pro casulo nerd.
A verdadeira liberdade enclausurada.
May 22, 2008 No Comments
Cena 07
(Porta se abre, luz penetra na sala e revela a penumbra do cansaço no assoalho)
12:01 AM.
Já é um novo dia. Mas o corpo e a mente ainda estão há alguns dias de atraso.
Finalmente em casa.
Os dias têm sido longos e o cansaço revela-se no olhar opaco. Pálpebras languenzas e o ritmo mais lento por teimosia.
Tantas coisas foram feitas nas últimas horas que a memória seletiva não consegue processar o que é importante e o que é irrelevante. Tudo está no limiar do esquecimento.
O clima frio do escritório é perfeito para congelar o mundo lá fora para que o foco tenha 17′ e só.
Imersão total, Matrix laboral com direito a plug no cérebro.
“Bring me back, operator”.
Apesar do esgotamento mental, bem mais mental do que físico, a sensação de alívio por ter de onde tirar rendimento abranda e justifica o risco do malabarismo sem rede de segurança. Se cair, morre.
Nesse caso, a necessidade faz o malabarista.
O processo agora é tomar um banho quente relaxante, ligar a tv e descansar um pouco. Agora de noite eu não quero ler, não quero ouvir podcasts, não quero clicar, linkar, responder, atender…agora eu quero a mim. Mesmo que eu só me tenha lúcido por míseros minutos.
Que assim seja.
(Porta se fecha e acendo a luz da sala).
12:02 AM.
May 20, 2008 No Comments